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sábado, 27 de outubro de 2012

Mort - Terry Pratchett


Detalhes do Livro:
Nome original: Mort.
Tradução: O aprendiz da Morte.
Autor: Terry Pratchett
Lançamento: Original: 1987.
                       Em português: 2002.
 Páginas: Versão comemorativa de 25 anos (lida): 243.
                Versão em português: 256.

À esquerda, a capa original (traduzida) e à direita, a versão comemorativa de 25 anos da série que foi lida por mim




  [ATENÇÃO: O LIVRO FOI LIDO EM SEU IDIOMA ORIGINAL, INGLÊS, PORTANTO MUITOS TERMOS UTILIZADOS PODEM NÃO SER EXATOS, CONSEQUENTES DE UMA TRADUÇÃO LIVRE FEITA POR MIM.]



Mort é o quarto livro da série Discworld, escrita por Terry Pratchett, marcando o início de uma série de livros que possuem como personagem principal a Morte que, curiosamente, teve aparições e papel relativamente relevantes nos livros anteriores da série.
Antes de qualquer coisa, no último parágrafo, chamei a personagem de “a Morte”, porém, no inglês, trata-se de “Death”, gênero neutro. Eu imagino que muitos de vocês saibam disso, mas é válido ressaltar que o livro trata-a como homem na maior parte do tempo. Então não estranhem frases que misturam os gêneros.  E no resto da resenha usarei “Death” para não confundir com Mort.
O plot começa com Mort, filho mais novo de uma família de destiladores de vinho que simplesmente não leva jeito para a horticultura. Numa tentativa de dar um rumo ao filho, o pai de Mort o leva a uma feira na praça da cidade, onde garotos com a intenção de tornarem-se aprendizes em alguma profissão eram avaliados pelos profissionais da cidade, que decidiam se treinaria algum deles em seu ofício.
Exatamente à meia-noite, horário do fim da feira e horas depois do penúltimo garoto ter sido escolhido, Mort e seu pai ainda estão sozinhos na praça, até a chegada de uma figura alta, esquelética e negra sem seu cavalo. Death quer um aprendiz.
Os seres humanos normais são incapazes de ver a Morte. Não se trata de magia nem nada do tipo, elas apenas negam sua existência, fazendo com que o pai de Mort aceite a proposta de Death, acreditando que seu filho será um empreendedor.
          E assim começa a saga de Mort como aprendiz de Death e morador de seu “reino”, aprendendo como as vidas da cada pessoa são medidas por ampulhetas, conhece sua filha Ysabell , seu servente Albert e o cavalo, Binky. Aos poucos, Mort é levado junto quando Death tem que fazer seus serviços e, no seu primeiro dia sozinho em um trabalho, ele comete um erro. Mort sente compaixão.
Como típico da série, Mort repete a façanha de seu antecessor e trata de um assunto sério, a morte, de maneira diferente, misturando a seriedade e talvez até certa frieza com humor mordaz e, às vezes, repetindo minha resenha anterior, bobo. A visão que o livro tem sobre morrer (“Não há justiça, apenas eu.” – Death) parece também refletir diretamente a do autor, vide que ano passado começou um processo de morte assistida ao ser diagnosticado com Alzheimer’s.
Quanto aos personagens, esse é o meu livro favorito da série, pois Death é o mais interessante. Enquanto de um lado não é esclarecida a diferença de caracterização dele do primeiro livro em comparação a agora (mesmo estando relativamente implícito que se tratava de outra entidade se passando por Death e stalkeando o Rincewind. Diferente do esperado, Death não é um assassino ou tem prazer no que faz, não é a Dona Morte da Turma da Mônica que acredito nunca tenha aparecido levando a alma de ninguém e nem é poético como a morte de A Menina Que Roubava Livros. Death é profissional e sabe que seu trabalho deve ser feito, tem um senso de humor e até certa piedade dos seres humanos, o que acaba o levando a conhecê-los mais de perto, nos dias que Mort o ocupa, o que leva a situações engraçadas e até surreais, praticamente marca registrada da série a esse ponto.
Os outros personagens, mesmo que em minha opinião não se comparem a Death, o complementam e são interessantes por si só. Ysabell é filha adotada, mostrando um lado mais sensível da personificação antropomórfica e um tanto mimada, uma falha, entretanto, é sua personalidade ser tão radicalmente diferente da sua pequena aparição em The Light Fantastic. Albert é o servente e o mais próximo de um amigo que Death possui, além de ter um passado muito mais importante do que parece e Mort, o aprendiz, é o resultado de colocar-se um adolescente e, acima de tudo, humano para fazer um trabalho tão importante onde a única regra é não interferir no destino daqueles que devem morrer. Além disso, todos esses personagens têm uma evolução incrível ao longo do livro. Fui reler o começo e mal reconheci as atitudes de Mort, comparado a como ele é no final.
A atmosfera do livro é muito boa, Death’s Estate é uma mistura de uma localização mística, como as ampulhetas e os livros que se escrevem sozinhos para cada pessoa do Disco, e mundano, como o estábulo para Binky, um cavalo de carne e osso. Temos novamente a presença da Unseen Academicals e até uma aparição de outro personagem famoso da série.
O humor continua o mesmo e ainda me agrada. Como já dito, o livro aproveita e coloca Death, um personagem fora do mundo e o coloca em situações tipicamente humanas, há novamente algumas situações de Lampshade Hanging, até por parte do autor e as piadas em que você precisa de um minuto ou dois ou uma semana para entender totalmente.
Sem dúvidas, Mort foi o meu livro favorito da série, talvez por eu ter me afeiçoado a alguns dos personagens principais desde suas primeiras aparições em livros anteriores, porém também por mostrar-se o que melhor balanceou seu humor e seriedade, em como fica até difícil separar os dois em qualquer ponto do livro. Caso a série mantenha esta qualidade, Discworld pode tornar-se uma das minhas favoritas, mas por enquanto irei parar de lê-la para dar atenção a alguns outros livros.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Equal Rites - Terry Pratchett

                    Detalhes do Livro:
Nome original: Equal Rites.
Tradução: Direitos Iguais, Rituais Iguais
Autor: Terry Pratchett
Lançamento: Original: 1987.
                       Em português:2002.
Páginas: Versão comemorativa de 25 anos (lida): 213.
                Versão em português: 221.

À esquerda, a capa original (traduzida) e à direita, a versão comemorativa de 25 anos da série que foi lida por mim.    




[ATENÇÃO: O LIVRO FOI LIDO EM SEU IDIOMA ORIGINAL, INGLÊS, PORTANTO MUITOS TERMOS UTILIZADOS PODEM NÃO SER EXATOS, CONSEQUENTES DE UMA TRADUÇÃO LIVRE FEITA POR MIM.]

           Equal Rites é o terceiro livro da série Discworld escrita por Terry Pratchett, diferenciando-se por não se focar mais no inepto mago, Rincewind, porém ainda passando-se no mesmo universo, o Disco, o início de uma tradição da série, mudança de personagens principais a cada livro até a eventual formação de 4 ou 5 histórias simultâneas, mas isso fica pra resenhas futuras...
            O plot começa quando Drum Billet, um mago perto do final de sua vida, chega no pequeno vilarejo de Bad Ass (Sério.). Sua vinda deve-se ao fato de que lá nascerá um oitavo filho de um oitavo filho. É sabido que o 8 é um número poderoso e que todos os oitavos filhos têm potenciais mágicos notáveis, duplamente no caso da criança que está por vir. Então Drum Billet resolve deixar seu cajado, símbolo da graduação de um mago e fonte de poder para a criança que está pra nascer. Na pressa para transferir rapidamente o cajado antes que chegue sua hora, o mago ignora os avisos de Granny Weatherwax, bruxa do vilarejo, parteira e uma das personagens principais, de que o bebê trata-se de uma menina, só ouvindo-a quando é tarde demais. Assim, tem-se, pela primeira vez no Disco, uma mulher maga: Eskarina.
Eskarina cresce como uma criança normal, porém começa a apresentar poderes mágicos de tal magnitude que ele ‘vaza’, assim, Granny Weatherwax oferece a Eskarina a oportunidade de ela ser sua aprendiz e tornar-se bruxa, controlando seus poderes, que caso não sejam domados podem chamar a atenção de criaturas perigosas das Dungeon Dimensions, lar de monstros dignos de pesadelos. Mas toda essa iniciativa de Granny não consegue conter o desejo de Eskarina de tornar-se maga e tentar a sorte na Unseen University, contra todo o preconceito.
Antes de qualquer coisa, vale-se notar que este assunto foi abordado sutilmente nos dois livros anteriores, normalmente por meio de anedotas, em que não se permitia que mulheres ingressassem na Unseen Academicals, universidade de magia, pois se temia que elas fossem magas competentes demais, por exemplo. Neste livro, rapidamente é feita a distinção que permeará toda a história. Apenas homens são magos, já que não aceitam mulheres, apenas mulheres são bruxas, pois os homens consideram seu ramo de magia muito inferior.
Eskarina é uma personagem jovem, de personalidade forte e que simplesmente não consegue entender porque não lhe permitem iniciar seus estudos de magia por ser mulher, mesmo ela apresentando talento inimaginável. Em suas viagens até a Unseen University, ela conhece Simon, um menino gago e tímido, com potencial tão grande quanto o dela, talvez maior. Mesmo com poderes comparáveis, Simon está sendo escoltando por um professor da universidade pessoalmente e sendo paparicado como o próximo grande gênio a pisar na universidade, enquanto Eskarina, tão similar, é ignorada simplesmente por ser mulher, formando um paralelo interessante.
Já Granny Weatherwax é outra personagem inédita pela série e, pelo o pouco que sei dos livros futuros, permanecerá durante boa parte da série. É uma velha bruxa, talvez uma das melhores, sem papas na língua e um pouco arrogante e rabugenta. Por meio dela, neste livro, somos apresentados ao mundo das bruxas. Bruxas possuem uma gama de funções, sendo responsáveis por partos, como já ditos, cura de doenças utilizando ervas, preparo de poções, algumas fortemente similares com remédios, e, é claro prática de magia. Mas até sua magia é diferente, enquanto a dos magos é extremamente complicada e ‘glamourosa’, a das bruxas é velada, tendo como suporte a Headology. Em linhas gerais, a Headology é o poder da crença e eu irei me abster de outros comentários, para não estragar todo o humor das várias instâncias de Headology pelo livro.
Esses personagens, já interessantes por si só, tornam-se muito mais pelo contexto de preconceito e, sendo mais específico, sexismo que forma o esqueleto da história. Granny Weatherwax representa o caso oposto do preconceito dos magos pelas bruxas, inferiorizando a magia à favor da bruxaria, talvez como mecanismo de defesa ou talvez por ela simplesmente ser tão boa bruxa assim. Eskarina, por sua vez, é a menina recém envolvida neste contexto e que repete a inconfortável pergunta: POR QUE mulheres não podem estudar magia?
Outro ponto interessante é que os perpretadores deste machismo são ignorantes aos seus motivos. Talvez minha escolha de palavras não tenha sido a melhor, mas o que quero dizer é que de Simon, o aluno genial, até a Cutangle, o Archchancellor da Universidade, a resposta para as perguntas de Eskarina é a mesma, que mulheres não podem estudar magia porque é contra a tradição, nunca aconteceu antes. E isso, pra eles, é motivo suficiente para finalizar a discussão, sem saber o porquê desta tradição existir e, mais importante, porque exatamente ela deve ser mantida.
O que, na minha opinião, faz este livro ser esplêndido é que, enquanto há assuntos sérios sendo abordados, a abordagem é, digamos assim, bem-humorada. O livro definitivamente não faz pouco caso do problema que está tratando e o critica abertamente, mas nunca perde aquela pitada de, digamos assim, bobeira. Mesmo sendo uma metáfora para a dificuldade das mulheres entrarem em certos nichos estereotipicamente masculinos, ainda se trata de uma história de uma menina com poder vazando tentando entrar na universidade de magia, enquanto monstros baseados nas histórias de H.P. Lovecraft são atraídos por seu poder e de Simon, na tentativa de invadir a dimensão do Disco.
Em suma, Equal Rites faz o balanço entre o típico humor de Terry Pratchett e a abordagem de um assunto social sério, tornando sua leitura uma atividade incrivelmente prazerosa.

domingo, 2 de setembro de 2012

The Light Fantastic - Terry Pratchett

Detalhes do livro:
Nome original: The Light Fantastic.
Tradução: A Luz Fantástica.
Autor: Terry Pratchett
Lançamento: Original: 1986.
                       Em português: 2002.
Páginas: Versão comemorativa de 25 anos (lida): 241.
                Versão em português: 227.

À esquerda, a capa original (traduzida) e à direita, a versão comemorativa de 25 anos da série que foi lida por mim.    


[ATENÇÃO: O LIVRO FOI LIDO EM SEU IDIOMA ORIGINAL, INGLÊS, PORTANTO MUITOS TERMOS UTILIZADOS PODEM NÃO SER EXATOS, CONSEQUENTES DE UMA TRADUÇÃO LIVRE FEITA POR MIM.]

[ATENÇÃO: POR SER TRATAR DE UMA SEQUÊNCIA DIRETA, ESTA RESENHA PODE CONTER REVELAÇÕES DE ENREDO DO LIVRO ANTERIOR, THE COLOUR OF MAGIC.] 


The Light Fantastic (A Luz Fantástica) trata-se do segundo livro da série Discworld, escrita por Terry Pratchett, sendo a sequência direta de The Colour of Magic, começando exatamente de onde seu antecessor parou.
O plot começa com o Octavo, o livro com os 8 feitiços utilizados pelo próprio Criador para criar o universo,  mudando completamente o Disco à fim de impedir que Rincewind, que possui algo muito importante preso na sua cabeça, e Twoflower caiam da borda do disco. Esta mudança acarreta na descoberta de que Great A'tuin, a tartaruga que carrega o próprio disco, está caminhando em direção a uma grande estrela vermelha e os magos da Unseen University, que são os únicos que podem descobrir do que se trata tal sequência de eventos, estão enfrentando suas próprias disputas políticas.
Como se pode notar, The Light Fantastic difere de The Colour Of Magic por tratar-se de uma história única e não dividida em pequenas aventuras sem muita continuidade. O resultado disso é uma história mais forte, coerente e um livro sem divisão de capítulos (que para os neuróticos, como eu, que só gostam de parar no começo de um capítulo novo, me fez ler o livro quase todo de uma vez).
Vale ressaltar que, apesar de agora ter maior importância, a história compartilha o primeiro plano com o humor e um dos pontos fortes do livro é nenhum sofrer em detrimento do outro. Ainda há momentos extremamente aleatórios, não se enganem, como, por exemplo, os personagens principais caírem de uma distância enorme e aterrissarem em uma rocha voadora gigante com druidas vivendo lá. O que quero deixar claro, é que mesmo havendo uma plot única, há a complementação entre história e humor. Neste mesmo asteróide com druidas, eles conhecem um personagem que irá acompanhá-los até o final da jornada. Estranho? Sim. Talvez até forçado e que não será do gosto de todos, mas acredito esta ser a intenção.
O humor segue a mesma linha do anterior e entrar em detalhes seria apenas me repetir. O que farei de qualquer forma. É aleatório, é bizarro e nem sempre inofensivo. Os mesmos druidas que eu ando mencionando parecem paródias do estereótipo ‘nerd’ dos anos 80, arrogantes e maníacos por computador. Existem as piadas mais óbvias como a existência do personagem Cohen, The Barbarian. E, com certeza, existem aquelas que eu não entendi.
Um ponto novo neste livro, entretanto, é a presença de algumas anedotas um pouco mais sérias. O narrador, em 3ª pessoa, ao se deparar com a situação de ter que descrever uma mulher guerreira, entra em uma breve tangente sobre o absurdo da existência deste estereótipo de mulheres que lutam sempre usando poucas roupas e sendo voluptuosas e jovens (e, é claro, subverte todos esses clichês.). Tendo em vista que machismo é o tema do próximo livro da série, imagino se este é o começo de uma vontade de abordar o assunto.
Esta crítica, todavia, é feita de maneira bem humorada e termina recomendando que, antes de escreverem sobre mulheres que lutam, os escritores de livros de fantasia “tomem um banho frio”.  Esta não é a única instância de aparentes comentários sociais velados. Com a aproximação de uma enorme estrela vermelha, forma-se uma seita religiosa adorando-a, que domina cidades, queimando os que acreditam em algo diferente ou as minorias raciais. Diferentemente do caso anterior, esta parte é narrada com certa seriedade, deixando o humor para as reações dos personagens principais.
Quanto a ser uma continuação direta, The Light Fantastic deixa pouco a desejar. A caracterização dos personagens, principalmente Rincewind, é aprofundada, o plot é a sequência lógica do anterior e o universo em si da história é consistente. Falando na propriedade de alguém que já leu os dois próximos livros da série, The Light Fantastic introduz as duas localidades mais importantes para os mesmos (Unseen University e Death's Domain, respectivamente) e sabe-se lá em quantos mais. Além disto, conforme escrevia esta resenha, me dei conta que o desenrolar e o final deste livro tornam do prólogo de The Colour Of Magic um grande Foreshadowing. Interessante.
Por fim, achei The Light Fantastic fantástico e o recomendo com as mesmas reservas que tive em The Colour Of Magic.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

The Colour Of Magic - Terry Pratchett



Detalhes do livro:
Nome original: The Colour Of Magic.
Tradução: A Cor da Magia.
Autor: Terry Pratchett
Lançamento: Original: 1983.
                       Em português: 2001.
Páginas: Versão comemorativa de 25 anos (lida): 210.
                Versão em português: 232.
À esquerda, a capa original (traduzida) e à direita, a versão comemorativa de 25 anos da série que foi lida por mim.    

[ATENÇÃO: O LIVRO FOI LIDO EM SEU IDIOMA ORIGINAL, INGLÊS, PORTANTO MUITOS TERMOS UTILIZADOS PODEM NÃO SER EXATOS, CONSEQUENTES DE UMA TRADUÇÃO LIVRE FEITA POR MIM.]

The Colour Of Magic (A Cor da Magia, em tradução livre), primeiro livro do que se tornaria a série Discworld (contando atualmente com 39 livros, algumas adaptações cinematográticas e algumas ‘short stories’), publicado em 1983 por Sir Terry Pratchett trata-se de uma paródia do gênero fantasia, não muito diferente de como Douglas Adams parodiou a ficção científica.
O mundo é um grande disco, apoiado em quatro enormes elefantes que, por sua vez, encontram-se em cima de uma grande tartaruga que anda lentamente pelo espaço, sem seus habitantes saberem de onde exatamente ela está vindo e para onde dirige-se. E neste disco encontra-se o típico cenário de fantasia medieval que estamos familiarizados.
A história se desenrola quando Rincewind, mago inepto e renegado da universidade de magia por ter quebrado uma de suas maiores leis, aceita ser o guia turístico de Twoflower, habitante de um continente longínquo do outro lado do Disco, o Counterweight Continent (Continente Contapeso, em tradução livre). Twoflower é sempre acompanhado por Luggage, seu baú de viagens sapiente que o segue onde quer que ele vá com suas centenas de minúsculas pernas e uma personalidade homicida. Explorando o disco, esses personagens encontram desastre e situações de vida ou morte onde quer que vão. (Ou será que eles que as levam consigo?)
Como vocês devem ter reparado, não existe um plot firmemente construído. A versão que eu li é dividida em quatro partes (Li na internet que alguns são divididos em seis, mas posso estar enganado) e cada uma é basicamente uma história por si só. Toda a exposition necessária para o desenrolar da história está contida em si mesmo e todas elas possuem início, meio e fim definidos, sendo apenas conectadas entre si por poucos elementos, como a presença dos deuses. E, claro, a situação dos personagens.
Tal forma de construir a narrativa me faz entender que, inicialmente, o plano nunca foi uma grande série. E sim uma forma de, em um mesmo livro, ter um número de situações em que se possa parodiar diferentes aspectos do gênero e autores. Um desses quartos do livro, por exemplo, parodia se não diretamente os trabalhos de H.P. Lovecraft, pelo menos o gênero de Cosmic Horror. Além disso, também se zomba da sociedade dentro de seus paralelos. Enfim, há dragões, magos, bárbaros, heróis, ladrões, políticos e corretores de seguro e todos são igualmente sacaneados por Sir Terry Pratchett.
Enquanto que, na minha última resenha, “O Temor do Sábio”, eu reclamei bastante sobre o fato do livro ser tão episódico, The Colour Of Magic foi uma tentativa bem-sucedida de uma história basicamente formada por histórias menores. O fato de muitas vezes ser tão desconexo não prepara o leitor para qual próxima situação Rincewind e Twoflower se meterão, faz imaginar o que exatamente será motivo de chacota e o quão anticlimático vai ser o final.
Diferente do que possa parecer pelos meus parágrafos acima, apesar de tudo, a paródia nunca é ofensiva. É sempre feita apenas como referência ao trabalho original e é, de certa forma, afetiva. Apesar de ser uma grande deconstruction do gênero fantasia, The Colour Of Magic é, e tornou-se com o passar dos anos um dos mais famosos e clássicos, livros de fantasia.
Por essas e outras, tenho um pouco de dificuldade em definir como é o humor da série. Não queria usar este termo, porém diria que é ‘britânico’. Baseando-se bastante no dualismo entre o absurdo e mágico e o extremamente mundano, o humor aproveita de todas as ferramentas de um livro para exprimir-se. Há piadas com jogos de palavras, há descrições mundanamente simples de fenômenos previamente caracterizados como indescritíveis, há monólogos do autor pouco relevantes ao assunto que está sendo tratado no livro, há a noção da existência da fourthwall, enfim. Devido a todos estes recursos, repara-se que trata-se de um livro extremamente complicado de traduzir-se e vender em outros países.
Todavia, humor é algo extremamente subjetivo e, enquanto particularmente achei genial na maioria das vezes, uma pessoa menos acostumada pode estranhar esta maneira de fazer humor. Ou, obviamente, pode simplesmente não gostar. Dificilmente recomendo livros (e resolvi fazer um blog de resenhas. Ha.) e este seria mais um deles. Não se enganem, adorei-o e continuarei a explicitar os porquês à diante, mas por se tratar de algo tão pessoal, fica um pouco complicado.
O ponto mais forte de toda a narrativa do Sir Terry Pratchett é que, como autor, ele respeita a inteligência dos seus leitores, algo que senti muita falta nos últimos livros que li, os que fiz resenha até agora também incluídos.
Em alguns pontos, ele até superestimou a minha inteligência. Após o término da leitura, pesquisei e me deparei com um site constando as referências de The Colour Of Magic e me dei conta do número de outros livros e autores parafraseados, parodiados, com personagens de mesmo nome, etc ao longo do livro que eu não havia reparado. Admito que alguns deles não havia nem ouvido falar.
Então, como achar graça de piadas que são se entendem? Bom, essas referências não constituem a totalidade do humor do livro e, a cada duas que não são reparadas, existe uma que você desvenda e sente-se satisfeito por isso. Em qualquer página, o leitor pode se sentir recompensado, mesmo que isso seja em detrimento do plot.
Como já mencionado, existem piadas de várias formas. Jogos de palavras, como Twoflower trabalhar com Inn-Sewer-Ants, pequenos enigmas, como lá no Counterweight Continent existir a reflected-sound-of-underground-spirits (essa admito que o livro teve que basicamente me falar o que era.) ou até conceituais como, novamente, Twoflower ser o típico estereótipo de turista oriental que temos que sai por aí batendo foto das coisas mais inócuas , acredita que entenderão seu idioma se ele fala alto e lentamente e achar que todos à sua volta são homens de boa fé. A cor da magia, titular do livro, trata-se da oitava cor, Octarine, a mais bonita e rei de todas as outras, visível apenas para os magos, indescritível... Mas é apenas um roxo amarelado esverdeado E isso eu só estou comentando das piadas encontradas nas primeiras páginas.
Li em alguns lugares e conversei com alguns (um) fãs (fã) da série que um dos maiores problemas de The Colour Of Magic é sua falta de consistência em caracterização e elementos da história em relação a outros livros. Por enquanto, como estou no começo, isso ainda não é verdade, porém resolvi ler mais alguns livros da série para averiguar.
Por fim, um livro com pouco plot focado em parodiar, simultaneamente, o gênero de fantasia dos livros e também elementos da nossa vida cotidiana, The Colour Of Magic me agradou bastante.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Belas Maldições, Neil Gaiman & Terry Pratchett



Belas Maldições
Neil Gaiman e Terry Pratchett


O que acontece quando se junta um autor invariavelmente famoso e adorado com outro, invariavelmente desconhecido e venerado?

Um livro invariavelmente muito engraçado.

Não do tipo que te faz gargalhar histericamente de vez em quando, mas daquele que você lê com  um sorriso nos lábios do início ao fim e que volta e meia faz com que se receba olhares tortos de pessoas próximas que assistem a disputa do bronze do tiro com arco. (A Coréia do Sul (?) ganhou, caso alguém se interesse, apesar de eu estar torcendo bastante para o carinha de óculos do México.)

Bem, eu estou falando de Belas Maldições escrito por Neil Gaiman (o famoso) e Terry Pratchett (o desconhecido).


Os Autores.

O Neil é responsável por livros como Stardust, Deuses Americanos, Coraline e pela HQ Sandman e – apesar da minha recente implicância com ele por causa das postagens e propagandas sem-graça que ele feito no blog dele– ele sabe, não só escrever bem um livro, mas como criar uma história. (O meu favorito é Stardust!)

O Sir Terry Pratchett é um daqueles autores absurdamente famosos. Mas muito famosos mesmo. (Negrito e itálico, isso que é enfatizar.) Mas que você nunca ouviu falar dele na sua vida inteira, até que aconteceu. Seus livros se passam basicamente em um único universo, o Discworld, o que pode parecer falta de criatividade. Mas eu digo com toda a minha experiência de apenas um livro dele lido, o que não falta nesse homem é criatividade.


A Sinopse (ou coisas bem-boladas e estrategicamente pensadas para chamar a sua atenção e te fazer ler esse livro sem parecer tudo muito intimidante).

O Apocalipse está prestes a acontecer, o Anticristo – a criatura mais poderosa da Terra e alguém extremamente preocupado com o meio ambiente – está prestes a se manifestar e um anjo e um demônio não gostam nem um pouco do que isso tudo está prestes resultar.

Aziraphale o anjo e Crowley o demônio gostam muito deste mundo, aqui eles se sentem confortáveis e já estão bastante acostumados e, por isso, decidem juntos impedir que toda essa história desnecessária de guerra entre o céu e o inferno e, consequentemente, o fim do mundo aconteça conforme planejado pelos seus Superiores (um caso de insubordinação bíblica), e, para isso, precisam lidar com a série de inconveniências que aparecem com o tempo como caçadores de bruxas, bruxas, precipitações climáticas envolvendo peixes e.. lagostas, desmaterializações e, claro, a maneira como qualquer cd que permaneça dentro do carro por mais de três dias insiste em se transformar em um cd dessa banda inglesa bem famosa. Além, claro, de matar o Anticristo.  E precisam fazer tudo isso até – como descrito no livro “As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa” ­– sábado. O próximo sábado.

E claro. Há um grande mal-entendido.


A Opinião.

Eu nunca gostei particularmente de histórias envolvendo anjos, demônios ou nada remotamente religioso. Mas Belas Maldições vale muito a pena. É um livro incrivelmente engraçado, com aquele humor que lembra O Guia do Mochileiro das Galáxias, um humor bem britânico. Cheio de ironias e referências a todas essas maluquices do mundo moderno, a cultura pop e incoerências bastante humanas.

Como na história um anjo e um demônio se juntam para impedir o Apocalipse e manter o mundo do jeito que ele é, há uma série de embates morais entre eles, te fazendo pensar no que seria o bem e o mal, na necessidade do Apocalipse e toda essa guerra entre o Bem e o Mal. Sobre o que esse plano inefável seria realmente.

Tendo lido livros dos dois autores, eu consigo ver em todo o livro um pouco do estilo de cada um e, ao mesmo tempo, ambos estão tão bem costurados que não dá para dizer que parte um ou outro escreveu, o que eu acho incrível (Enfatizar! Enfatizar!).  E queria muito saber como foi que eles começaram isso tudo. Eles pensaram na história toda antes de sentar para escrever ou o destino dos personagens veio conforme as letrinhas apareceram?

Acima (ou abaixo, dependendo do referencial) de tudo, o que eu mais gostei foi a maneira como o livro foi escrito. Eu adoro digressões. Sou uma fã incondicional de digressões. Eu poderia ser presidente do partido dos utilizadores de digressões em obras literárias (PUDOL, nosso símbolo é uma flecha com enfeites mexicanos – sim, eu estava realmente torcendo para ele – e estaremos concorrendo para a secretaria legislativa da ABL em 2017, contamos com seu apoio).

 Afinal, quem precisa de uma linha contínua de idéias? Informações aleatórias sobre fatos aleatórios é o que há de melhor!

Enfim, é um livro muito bom que trata de temas um tanto quanto delicados, mas consegue fazer isso com personalidade, humor, ironia e delicadeza. Sem ofender ninguém.


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aqui tem um link para uma pequena lista de resoluções de fim de ano do Crowey e do Aziraphale escrito pelos autores. Bem legal.

E pesquisando no Dicionário inFormal, descobri que inefável significa “...[aquilo] que não pode ser expresso verbalmente. Algo de origem divina, dotado de tantos atributos de perfeição e beleza, que transcende os limites da linguagem humana.” Isso pode ser útil para alguém, algum dia.